Por Sérgio Hicardo
A noite caiu preguiçosa sobre a cidade, enquanto o rĂĄdio do carro sussurrava uma canção antiga. LuĂsa olhava pela janela, as luzes da rua se refletindo em seus olhos como se piscassem para ela. Ao volante, Rafael mantinha o sorriso discreto de quem sabia exatamente para onde ia â e com quem.
Tinham saĂdo para jantar, mas os olhares trocados durante a sobremesa jĂĄ anunciavam um destino alĂ©m do restaurante. Era um desejo antigo, guardado em mensagens trocadas em silĂȘncio, nos toques casuais, no tempo que os dois aprenderam a deixar acontecer.
â E se a gente for ali? â ele perguntou, com a voz baixa, apontando com o queixo para uma entrada discreta, iluminada por letreiros em nĂ©on.
LuĂsa nĂŁo respondeu com palavras. Apenas sorriu e deixou que sua mĂŁo escorregasse devagar sobre a perna dele, como quem autoriza, como quem deseja.
O quarto era maior do que ela imaginava. Tinha espelhos, uma iluminação suave e uma trilha sonora que parecia escolhida a dedo. A porta fechou-se atrĂĄs deles com um clique firme â e o mundo lĂĄ fora deixou de existir.
Rafael se aproximou devagar, como quem dança sem mĂșsica. As mĂŁos dele procuraram o rosto dela, e ali permaneceram por um instante eterno. O beijo foi lento, quase tĂmido, mas intenso como promessa cumprida. NĂŁo havia pressa â apenas entrega.
As roupas caĂam pelo caminho como folhas no outono, silenciosas e inevitĂĄveis. Cada toque era descobrimento, cada suspiro, resposta. Os corpos se ajustavam como versos de um mesmo poema, e o amor ali nĂŁo era apenas pele â era alma, era tempo suspenso.
Horas depois, deitados lado a lado, ouviram a chuva começar a cair lĂĄ fora. LuĂsa virou o rosto para ele, o cabelo desalinhado, os olhos calmos.
â A gente devia fazer isso mais vezes â sussurrou.
Rafael sorriu.
â Ou nunca parar.
A noite seguiu sem pressa, como tudo que Ă© verdadeiro.
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Autor: Sérgio Hicardo


