Imagens sísmicas revelam fraturas profundas no sistema formado pelas placas Explorer e Juan de Fuca, próximo à costa do Canadá

Legenda sugerida: Mapa da região tectônica de Cascadia, no nordeste do Oceano Pacífico, onde as placas Explorer e Juan de Fuca mergulham sob a Placa Norte-Americana.
Cientistas conseguiram observar, com detalhes inéditos, um processo de fragmentação acontecendo nas profundezas do Oceano Pacífico, próximo à Ilha de Vancouver, no Canadá. As evidências mostram que partes do sistema tectônico formado pelas placas Explorer e Juan de Fuca estão se rompendo lentamente à medida que avançam sob a Placa Norte-Americana.
A descoberta não representa a abertura repentina de uma enorme rachadura no fundo do mar. O que os pesquisadores registraram foi uma espécie de “imagem interna” da crosta terrestre, produzida por ondas sísmicas. O método funciona de forma semelhante a um exame de ultrassom: ondas sonoras atravessam as camadas do subsolo e retornam aos sensores, permitindo reconstruir as estruturas escondidas.
O trabalho foi publicado em setembro de 2025 na revista científica Science Advances e reuniu pesquisadores de instituições dos Estados Unidos, Canadá e Suíça. O estudo foi liderado pelo geólogo Brandon Shuck e recebeu o título “Slab tearing and segmented subduction termination driven by transform tectonics”. Leia o estudo científico.
Uma placa desaparecendo lentamente
A área pesquisada está localizada na porção norte da Zona de Subducção de Cascadia. Nessa região, placas oceânicas deslizam lentamente para baixo da Placa Norte-Americana, em um movimento chamado subducção.
Durante milhões de anos, esse processo transporta partes da crosta oceânica em direção ao interior da Terra. Entretanto, quando uma dorsal oceânica — local onde uma nova crosta é formada — se aproxima de uma zona de subducção, a dinâmica pode mudar. A placa pode perder continuidade, fragmentar-se e formar novos limites tectônicos.
Os pesquisadores concluíram que a Zona de Falha de Nootka começou a se desenvolver há aproximadamente quatro milhões de anos. As diferenças de velocidade entre as placas Explorer e Juan de Fuca produziram tensões que, gradualmente, concentraram a deformação e favoreceram o surgimento de grandes fraturas.
Segundo o estudo, esse processo separou a microplaca Explorer e reduziu seu movimento de subducção, enquanto partes vizinhas da placa Juan de Fuca continuaram mergulhando sob o continente.
Como os cientistas enxergaram a ruptura
As informações foram obtidas durante a expedição científica CASIE21, realizada em 2021 pelo navio de pesquisa Marcus G. Langseth. A embarcação percorreu a região emitindo ondas sonoras direcionadas ao fundo do oceano.
Os sinais refletidos pelas diferentes camadas de rocha foram registrados por sensores. Depois de processados, os dados produziram imagens sísmicas de alta resolução, capazes de mostrar falhas, deformações e desníveis existentes abaixo do leito marinho.
A análise revelou rasgos nas porções submersas das placas, além de uma extensa estrutura de falhas associada à região de Nootka. Em determinado trecho, os cientistas identificaram um desnível de aproximadamente cinco quilômetros entre partes da placa.
Os dados públicos da expedição incluem levantamentos sísmicos sobre as placas Explorer, Juan de Fuca e Gorda e podem ser consultados no Marine Geoscience Data System.
Fenômeno acontece por etapas
Uma das principais conclusões é que o desaparecimento de uma zona de subducção não ocorre de uma única vez. A ruptura avança por segmentos, ao longo de milhões de anos.
Algumas partes da placa podem permanecer conectadas enquanto outras já estão parcialmente separadas. Falhas transformantes, nas quais blocos rochosos se movimentam lateralmente, também podem controlar o caminho dessas rupturas.
Os cientistas descrevem o processo como um exemplo atual de encerramento gradual de uma zona de subducção. Até então, grande parte do conhecimento sobre esse tipo de transformação vinha da análise de estruturas geológicas antigas.
Existe risco imediato de terremoto ou tsunami?
A Zona de Subducção de Cascadia possui histórico de terremotos de grande magnitude e tsunamis. Por isso, qualquer descoberta sobre sua estrutura é importante para aprimorar os modelos de risco sísmico da costa oeste da América do Norte.
Entretanto, o estudo não afirma que a ruptura identificada provocará imediatamente um grande terremoto ou tsunami. Também não é possível determinar uma data para a separação completa das placas. O fenômeno ocorre em escala geológica e pode continuar por milhares ou milhões de anos.
As novas imagens ajudam os especialistas a compreender como a segmentação das placas pode influenciar a propagação de futuros terremotos. Dependendo da geometria das falhas, uma ruptura sísmica pode ficar limitada a determinado segmento ou avançar por uma área maior.
Portanto, a descoberta deve ser entendida como um avanço científico, e não como uma previsão de catástrofe iminente.
Um raro retrato da transformação do planeta
O estudo oferece uma oportunidade incomum de acompanhar um sistema tectônico em processo de reorganização. A fragmentação das placas Explorer e Juan de Fuca demonstra que a superfície terrestre continua mudando, mesmo que essas transformações sejam lentas demais para serem percebidas durante uma vida humana.
As evidências também ajudam a explicar como antigas placas desapareceram, como novos limites tectônicos foram formados e de que maneira continentes e oceanos assumiram suas configurações atuais.
A pesquisa reforça que o planeta está em constante movimento. Sob o fundo do Pacífico, longe da visão humana, grandes blocos da crosta seguem se deslocando, deformando e fragmentando — redesenhando silenciosamente a estrutura da Terra.
Autor: Sérgio Hicardo — TV Criar Brasília-DF
Fontes: Science Advances/PMC, pesquisa do geólogo Brandon Shuck, CNN Brasil e Marine Geoscience Data System.


